Escrever não é contar as próprias lembranças, suas viagens, seus amores e lutos, sonhos e fantasmas. Pecar por excesso de realidade ou de imaginação é a mesma coisa: em ambos os casos é o eterno papai-mamãe, estrutura edipiana que se projeta no real ou se introjeta no imaginário.
É um pai que se vai buscar no final da viagem, como no seio do sonho, numa concepção infantil de literatura. Escreve-se para pai-mãe.
[...]
Não se escreve com as próprias neuroses.
A neurose, a psicose não são passagens de vida, mas estados em que se cai quando o processo é interrompido, impedido, colmatado.
A doença não é processo, mas parada de processo, como no "caso Nietzsche". Por isso o escritor, enquanto tal, não é doente, mas antes médico, médico de si próprio e do mundo.
"O mundo é o conjunto de sintomas cuja doença se confunde com o homem".
A literatura aparece, então, como um empreendimento de saúde: não que o escritor tenha forçosamente uma saúde de ferro [...], mas ele goza de uma frágil saúde irrestível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo devires que uma gorda saúde dominante tornaria impossíveis.
Gilles Deleuze - A literatura e a vida "in" Crítica e Clínica, São Paulo: editora 34, 1997 - p.12-13-14
domingo, novembro 07, 2010
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